
Navego no tempo qual ser estranho,
Homem faminto de quereres...
A água à toa da vida no olhar perdido
Ainda atiça meus desejos,
Ainda sustem minha nau de tantos não-rumos.
Da hora em que vim, ignaro de dores e cansaços,
E tomei para mim o leme inútil de meu barco,
Entendi apenas que não importa aonde chegar
Mas sim o oceano-tempo a me conduzir em descaminhos
Num viver sem remorsos cada gota das águas que me cabem.
Continua, corpo meu cansado!
Singra as ondas que o deus do nevoeiro
Pôs à tua volta nesse mar do existir.
Haverá um porto no fim da jornada
Para a alma teimosa que carregas:
Uma ilha nua na pele de uma indizível mulher
Onde hei de me desfazer de quem sou
Do que fui, do que vi, do que fiz
E mesmo em meio ao medo e ao espanto,
Consentir e esquecer.
3 de fevereiro de 2010
12 de janeiro de 2010
POIESIS

POIESIS I
Ah lindos olhos!
Que fria é a indiferença!
Crer ou não crer,
Fogo divino ou roubado,
Fogo estelar ou fogo fátuo.
Barro das estátuas ou poeira estelar...
Ao abrir a arca, lindos olhos,
O deslumbramento do primeiro instante
Fenece,
Pois não alcançamos a eternidade.
Aqui é o poço do interminável...
O eterno é mais como a fotografia,
Ilusão, átimo e átomos que não envelhecem,
Sempre o primeiro espocar.
Apenas meus fantasmas
Continuam livres nos álbuns de retratos.
POIESIS II
Tempo é como uma onda a girar sobre si.
O mar da eternidade, esse, é instantâneo,
Não tem ontem nem amanhã!
Um velho templo abandonado tem mais de Deus
Que todas as religiões.
Vazio e sem teto, sem ninguém que o bendiga,
Sem pensamentos
É sagrado por deixar de ser...
O acontecer é o espaço a rolar na vaga do tempo...
O início é só uma palavra que em verdade
Nunca devia ser dita.
POIESIS III
Nenhum lugar...
Névoa dos séculos sem ninguém,
A ausência, o vazio.
Só o amor é único e eternamente jovem.
O que é mais repugnante é o correr dos anos,
A verdadeira prisão dos homens...
O anjo mais belo já é comparação,
Implica em haver o mais feio, dualidade, existência.
Esse anjo luzente, o mais só, cíclico e interminável,
Arde e consome-se, lucila e então se apaga.
É a última entranha,
E por ser derradeiro teve começo
E isso é não ter paz,
Isso é Nascer e Morrer!
POIESIS IV
Existir está fadado a acontecer
E o destino é a vontade,
A órfã vontade dos mais antigos anseios.
Os corações acorrentados por Saturno petrificarão,
Depois desmanchar-se-ão em pó
E o pó em instante.
A redenção é deixar de ser,
Nenhum lugar, nenhum momento,
Apenas o amor primeiro e único!
POIESIS V
Por que “se Deus quiser”?
Quem quer é o homem,
Esse prisioneiro do acontecer.
Deus nada quer e nem acontece
Por isso é eterno.
Existir nada tem a ver com a eternidade!
3 de janeiro de 2010
DANTE'S PRAYER ( Loreena Mckennitt)
Quando a escura floresta caiu sobre mim
E todas as trilhas ficaram encobertas
E os sacerdotes do orgulho diziam não haver outro modo
Eu revolvi os lamentos de pedra
Eu não acreditava porque ver não podia
Embora me tenhas vindo à noite
Quando a aurora parecia para sempre perdida
Mostraste-me teu amor no luzir das estrelas
Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer infinda
Peço, lembra de mim
Então a montanha elevou-se à minha frente
Do fundo poço dos desejos
A começar da fonte do perdão
Para além do gelo e do fogo
Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer sem fim
Peço, lembra de mim
Embora partilhemos este humilde caminho sozinhos
Como é frágil o coração
Oh, dê a estes pés de barro, asas para voar
Para tocar a face das estrelas
Sopra vida neste flébil coração
Ergue este mortal véu de medo
Toma estas destruídas esperanças, corroídas de lágrimas
Vamos nos elevar acima das coisas mundanas
Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer sem fim
Peço, lembra de mim
Peço, lembra de mim...
28 de dezembro de 2009
Meu velho fantasma
Lembro-me de ti, sem dizer uma palavra,
Olhos baços, furtiva sombra
A pairar notívaga...
Lembro-me de auscultar o eco dos passos
Madrugada fria afora,
Rua deserta, esquinas de mim e de ti.
Quem era eu e que sou agora?
Em noites de mim desgarrado,
Tu vinhas por oceanos de solidão escura
E sorrias triste...
Eras como roupa estendida branca
Num varal de miragens
A tremeluzir sobre a areia...
Por favor, lembra de mim...
Então, às vezes, recordo fragmentos,
Festas de jardins sem muros, fluidos sonhos,
Espectros de minhas idades.
Uma vez, noite de inverno sem rumo,
Perambulando como um bobo que um cão perturba,
Vi num relance teus imensos panos pelos muros.
Eras-me conhecido e desconhecido...
Mas isso não importava, bastavas-me assim
Através da bruma, por sobre as sombras minhas,
Espectro indelével, meu espelho no asfalto molhado.
Um brilho de lua num telhado, um sopro repentino,
Ou mesmo uma gema d’água em meio a uma chuva fina,
A escorrer-me pelos olhos e pela alma.
Por favor, não te esqueças...
Também peço, meu fantasma.
Quando for eu o espectro e tu o que sou,
Quando vier a sorrir triste em tuas noites,
Quando, solidão dos vivos, surgir de viés em teu caminho
Não me deixes a ondear meus trapos sem ti.
Reconhece-me, mesmo sem me conheceres.
Eu em ti, meu fantasma, tu e mim!
Quem era eu e que sou agora?
Por favor, lembra de mim...
Eras-me conhecido e desconhecido...
Por favor, não te esqueças...
15 de dezembro de 2009
História quase extraordinária
Há muitos anos, eras atrás,
Tempo perdido que se desfaz,
Na quente poeira do deserto,
Algur, alhures, lugar incerto,
Um magnífico e sagaz sultão,
Orgulho guerreiro de leão,
Montava um lindo corcel escuro
A guiar implacável e duro,
Uma tribo feroz e invencível
Crua força dita indestrutível.
Sua sombra na areia era imponente!
Hoje há lá, somente areia quente...
22 de outubro de 2009
noturno 21 - Primavera em sAMpA
Gente desgovernada
No metrô
Pastas mochilas guarda-chuvas
Ar viciado
Chove lá fora
Cento e cinqüenta quilômetros de congestionamento
A faixa amarela não deve ser ultrapassada
Sem lugar para o café
Cuidado porta automática
Vida automática
Espera
E as flores - não há flores
Trem estacionado na plataforma
Destino viciado
Mergulhado na rua agora
Reflexos de néon sobre os transeuntes
Um café, por favor – ficha no caixa
Em meia hora estou chegando
Primavera e estou chegando
Sem flores - não há flores
Anoitece
Toca o celular tocam-se celulares
Palavras & mensagens & chuva
Cento e cinqüenta passos de descomedimento
A luz amarela cintila nas gotas dágua
Seu café
Ato torto Vida torta
É primavera em Sampa
Rampa do viaduto
Toca o celular
Nada de flores - não há flores
Escuto
Meu silêncio noturno
Minha primavera sem dentro
sem cores – sem flores.

