11 de junho de 2008

Tudo o que pude

Dos momentos incertos onde dizes 'não'
à praxe dos dias em que te calas, ausente,
aguardo que despejes um 'talvez' oblíquo
no instante eterno onde espero um 'Sim'

Ao tilintar das esmolas dos teus gotejos
e à glória abençoada dos teus lampejos
dediquei desnudo minhas noites em claro
e sonhei, voraz, cada um dos nossos dias

Apontaste-me a praia mas rumaste ao ermo
Diabos ao mangue! O que procuro está aqui,
no sal da tua boca, na maresia de tuas coxas:
Eis aí Meu Oceano, a orla de meus desejos!

Recuso-me a ouvir tua sinfonia morosa,
Tuas ondas contidas a bater nos corais
Presas aos escolhos de tuas 'escolhas'
e às carcaças roídas dos velhos naufrágios

Na taumaturgia de logro de teus desesperos
evocas em vão a ressureição dos mortos
e despertas não mais que rotos fantasmas...
Por que não a mim, que adormeço em ti?


Como crer-te, Impiedosa?


Cala-te por suspiros, a convicção da tua voz perece,
refuga, pois vem de teus Deveres e não de Quereres.
Tuas gotas salobras molham os dentes de plástico
com os quais dás Adeus e sorris, sem crer

Por que não tiraste o Grão do sepulcro
e plantaste no solo quente desse abraço?
Ignoras? Semente não brota em concreto
nem as Mudas, tuas, de tua dor viverão.

Pois entrega-te ao embaraço de teus dias
à geada eterna de tuas noites infindas
Deita-te inerte sobre o mármore frio...
Mas o Amor não blasfemeis, tu e teu medo da vida.

10 de junho de 2008

A face 1 - Recorrência

Encantam-me seus contrastes, todos...


Um olhar, um semblante, uma mágica qualquer
Capaz de um instante transformar em arte,
um sonho em slide e rotinas em tintas.
Ela, pigmento oscilante, furta-cor, furta-paz.

Comigo há décadas, num vago silêncio que sugere sem dizer.
Suas reticências, suas incertas origens e suas incógnitas

traduzem impulsos, desejos e posse indistinta,
magnetos da fome e do ferro em meu sangue.

Tal criança faminta, tateio no escuro
pelo mamilo de seus trejeitos,
pela urgência de suas dúvidas
e pela mácula em seus lençóis.

Encontro-a em rostos e caras furtivas
e, por um momento, em ti quase creio.
Desvelo, incinero e encontro a mim mesmo,
a reter imagens num espelho (diante do qual ninguém há).

Quero. Quero e respeito seu estalar de dedos.
Eu, soldado ilhado num bunker qualquer,

onde notícias da guerra demoram a chegar,
obedeço sua ordem sem jamais ouvi-la.

Sonâmbulo a postos:
Deitado sobre o telégrafo,
balbucio seu nome sem sílabas
e adormeço.

De onde está, sente meus dedos ávidos?
Adoçam-te? Roçam-te? Eriçam-te?
Dizem-te de mim mais do que eu?

Ouve-se nós? Houve nós? Haverá?

Diga. Qualquer coisa, mas diga.

Espere...

Espere, sou como uma criança
Querendo estender minhas mãos
Para você, meu amor doce!
Oh espere, sim, ai de mim.
Até parece que está comigo,
Que me conhece bem!
Que vai me beijar agora,
Segurar meus quadris pedintes...
Vou fugir de você!
Não devo me entregar.
Ai! Estou chorando...
Sei o que devo fazer!
Quase me perco por amar você,
Mas não! Sou uma iconoclasta!
Antes quebrar minha obra íntima,
Os cacos de minha fantasia de louça,
Que estar doente de um desejo vazio.
Pode deixar, amor,
Posso deixar você. Um beijo ardente...

9 de junho de 2008

Quem és em mim

É tarde da noite e mesmo assim
Tento ver quem és dentro de mim...
E insone por teimosia pura
Fico só na madrugada escura.
Tu estás ternamente em meu poema,
Na voz doce do telefonema,
No amor digitado em minha tela,
No escolho do mar que te revela
A fêmea triste a chamar no vento.
Tu és minha paixão e meu tormento,
A força que me põe de joelhos
A buscar através dos espelhos
Teu colo que sem poder desejo,
A boca que pede ardente um beijo,
Teu regaço, a gruta úmida e quente
Que é meu delirar incandescente...
Tudo que na solitária hora
É esse louco amor que me devora.
Tenho que fugir, mas não consigo!
E por te querer ainda te sigo...
É tarde da noite e mesmo assim
Quero ter quem és dentro de mim...

8 de junho de 2008

O futuro no pretérito

Cantem poetas do amanhã.
Ossos partidos, cabeças abertas,
Enquanto houver signos,
Vibrem vozes voláteis,
Pulso elétrico, vida.
Eu, do fundo de um oco,
Abandonando meu corpo,
Sonho de uma trepada sem tréguas
Fugirei num grito, eco de meu mundo
Sobrevivendo da terra
Nos crânios evocados do futuro.
Hábitos amargos do amor contido,
Estarei nas suas entrelinhas, poetas,
Num longínquo futuro, sob estrelas,
Voltando para uma casa inexistente.

A Última Fronteira

No fim de qualquer mundo
Há uma tristeza intransponível.
São os fins em si mesmos,
Como os mortos a esperar placidamente em nós.
Nosso tecido puído esgarça-se, dissolve-se,
Perde-se na rudeza de se saber pó.
Nada mais há que a absoluta linha inexeqüível...

O homem é um ser a ultrapassar a si mesmo.
O que veio para se superar entre o ser e o não ser.
Inevitavelmente estará nu diante dessa fronteira,
Essa angustiante marca entre mundos.
De repente a neblina se abre sobre o precipício
E só o que se tem é essa tranqüila melancolia,
Essa fluidez sobre tudo. Desistir aos poucos.

Dar direito ao espírito de se deixar ir.
O caminho traçado, queiramos ou não,
É esse retorno inalcançável, quase intolerável:
Integrar-se à unidade, ou ao zero, no fim do fim.
E a alma, essa desvairada, querendo brincar, brincar...
Brincar enquanto a eternidade como uma fotografia,
Esvoaça por sobre a última fronteira desmanchando-se...

Choro. Por um momento choro angustiadamente.
É tão desesperador descrer! Depois me abandono,
O olhar sobre o abismo em todas as direções,
O olhar que num instante já nada vê, nada pensa
Pois não vai existir minha essência.
Choro por tudo o que de belo conheci
E que se desmancha ao ultrapassar o último momento.

Todas as pessoas, todos os lugares, toda a arte,
Todas as dores, todos os pensamentos, todos os atos,
Toda a consciência a tornar-se inútil...
Venha, pois de braços abertos, beleza eterna do acontecer,
Venha e então me tome e desfaça em mim o ato de ser.
Nada mais, só entrega, só essa linha infindável,
Intransponível, claramente indizível entre o ser e o nada.