Lembro-me de ti, sem dizer uma palavra,
Olhos baços, furtiva sombra
A pairar notívaga...
Lembro-me de auscultar o eco dos passos
Madrugada fria afora,
Rua deserta, esquinas de mim e de ti.
Quem era eu e que sou agora?
Em noites de mim desgarrado,
Tu vinhas por oceanos de solidão escura
E sorrias triste...
Eras como roupa estendida branca
Num varal de miragens
A tremeluzir sobre a areia...
Por favor, lembra de mim...
Então, às vezes, recordo fragmentos,
Festas de jardins sem muros, fluidos sonhos,
Espectros de minhas idades.
Uma vez, noite de inverno sem rumo,
Perambulando como um bobo que um cão perturba,
Vi num relance teus imensos panos pelos muros.
Eras-me conhecido e desconhecido...
Mas isso não importava, bastavas-me assim
Através da bruma, por sobre as sombras minhas,
Espectro indelével, meu espelho no asfalto molhado.
Um brilho de lua num telhado, um sopro repentino,
Ou mesmo uma gema d’água em meio a uma chuva fina,
A escorrer-me pelos olhos e pela alma.
Por favor, não te esqueças...
Também peço, meu fantasma.
Quando for eu o espectro e tu o que sou,
Quando vier a sorrir triste em tuas noites,
Quando, solidão dos vivos, surgir de viés em teu caminho
Não me deixes a ondear meus trapos sem ti.
Reconhece-me, mesmo sem me conheceres.
Eu em ti, meu fantasma, tu e mim!
Quem era eu e que sou agora?
Por favor, lembra de mim...
Eras-me conhecido e desconhecido...
Por favor, não te esqueças...
28 de dezembro de 2009
Meu velho fantasma
15 de dezembro de 2009
História quase extraordinária
Há muitos anos, eras atrás,
Tempo perdido que se desfaz,
Na quente poeira do deserto,
Algur, alhures, lugar incerto,
Um magnífico e sagaz sultão,
Orgulho guerreiro de leão,
Montava um lindo corcel escuro
A guiar implacável e duro,
Uma tribo feroz e invencível
Crua força dita indestrutível.
Sua sombra na areia era imponente!
Hoje há lá, somente areia quente...
22 de outubro de 2009
noturno 21 - Primavera em sAMpA
Gente
No metrô
Corpos pastas mochilas guarda-chuvas
Ar viciado
Chove na cidade
Lá fora na cidade
Cento e cinquenta quilômetros de congestionamento
A faixa amarela não deve ser ultrapassada
Sem lugar para o café
Cuidado porta automática
Vida automática
Espera
E as flores - não há flores
Trem estacionado na plataforma
Destino viciado
Privacidade - sem privacidade
Mergulhado na rua agora
Reflexos de néon sobre os transeuntes
Um café, por favor – ficha no caixa
Em meia hora estou chegando
Primavera e estou chegando
Sem flores - não há flores
Anoitece
Toca o celular tocam-se celulares
Palavras & mensagens & chuva
Cento e cinqüenta passos de descomedimento
A luz amarela cintila nas gotas dágua
Seu café
Privacidade
Priva-me a cidade de mim
Ato torto Vida torta
É primavera em Sampa
Rampa do viaduto
Toca o celular
Nada de flores - não há flores
Escuto
Nos boatos da cidade
Meu silêncio noturno
Minha primavera sem dentro
sem cores – sem flores - sem mim.
15 de outubro de 2009
Corpo de palha

Nas veias escuras da noite que me toma,
Jaz meu corpo como um velho espantalho,
Abandono, desapego, desenredo,
Dissonância.
A ave noturna voa,
Um vôo enganado pelos meus frangalhos,
Pelo meu “rosto sem rosto”,
Pelo céu.
Na fria madrugada,
Espreito imóvel.
A noite assombra o farfalhar das plantas.
Encontro-me estrangeiro sem biografia por dentro.
Sou quase nada, mãos de palha, estaca,
Distância.
Mas no bojo do mundo,
Braços abertos do espantalho,
Sou soprado no escuro corpo das horas erradias.
E então flutuo.
Esgueiro-me pela pele dos amantes,
Entre as coxas abertas e entregues,
Por rostos de mil faces,
Pelo céu de tua boca...
Nas asas da noite,
Daqui de meu canto de espantos,
Desfaço-me em insignificâncias no ar.
Eu & tu

Eu e tu somos eremita & estrada.
É teu corpo o meu percurso,
Todos os recantos de tua pele...
Tens meu desejo largo esboçado em ti.
Teus olhos negros e fundos,
São o esconderijo de meu ser cansado,
O santuário noturno e amável que me acolhe.
E entre tuas coxas de deusa,
Fenda intumescida a medrar tua volúpia,
Vou mergulhar inteiro.
Tua alma encontra a minha.
E minha lanterna ilumina meu lugar em ti.
13 de outubro de 2009
Amor Virtual

O sapo quer um beijo da princesa.
Ela, ficar na beira da lagoa.
Ele vê nela a perdida nobreza,
Ela bem sabe como nele ecoa.
O “bufo” quer estar com sua beleza,
E ela manter-se ali sentada à toa!
Ouve o batráquio com delicadeza
E ele conta que perdeu sua coroa.
E assim ficam os dois nessa indestreza
De entenderem de fato o quanto doa
A sina incônscia que nos dois destoa:
Encontrarem-se apenas na frieza
De serem somente sapo & princesa,
Caso virtual de amor de lagoa!

