10 de junho de 2009

A hora do amor

Estranho amor esse
Que mal cabe em mim!
Que transborda
Minando de minhas veias sujas
Num sangue grosso-ferrugem,
Indistinto, meio sombra,
Meio brilho-útero,
Borrado no cetim...

Amor cativo,
Acuado em minhas coxas
Úmidas & enlaçadas
À ferocidade gentil
Da força bruta que me toma.
Tem ele essência de torvelinho
Antes do vendaval
A varrer meu corpo nu e surrado,
De uma batalha onde meu desejo
É ser vencida total
E desmesuradamente...

Um amor de mulher
Sedenta dos descuidos
De viver sua própria tempestade
O eixo da carne
À beira do insuportável
A cravar meu colo
De predadora nos lençóis
Libertando-me do tempo interminável
No instante eterno em que me dissolvo!

Ai, estranho amor,
Não se deve dizer seu nome a esmo,
Amor quase impronunciável,
O lado sagrado da paixão à flor da pele...
Em vez disso o que faço é só gritar
“Eu te amo”
Enquanto meu sangue
Tinge meu corpo de vida
E minhas lágrimas
Lavam minha sofrida alma de prazer!

9 de junho de 2009

A metamorfose dos anjos


Sonho...
Encontro-me sempre a pairar ansioso
Acima dos vales aráveis de teu corpo,
O avesso vôo de estar contigo,
A fingir teimoso um ar ousado de inocência...
Ensaio o gesto, vã inconsistência,
De quase tocar tua pele morena,
Desencontrado em arrepios a te querer.
Asas abertas, noturnas asas,
Sopro meu hálito em rajadas rasas
De um quente desejo,
O beijo que não alcança
Teu proibido ventre nu.
Eu sobrevoando em círculos
Sem descanso,
Sem pouso,
Sem fim,
Em ti.

27 de maio de 2009

Olha!


Olha-me. Tremo silente por vida
Eu lagarta, eu borboleta, eu fêmea,
Filha escondida de acontecer, triste,
A procurar por ti, janelas escuras
Para o incompreensível a mim...
Ai de ti, ai de nós...
Vestida de trapos, vontade de terra,
Carne de meu corpo a buscar quem sou!

És tu, terno homem que me olhas sem entender,
Amante exógeno, és tu que quero ter
Em minhas cansadas ancas,
És tu que não dizes palavra que amo,
Tu que beijaste minha boca pedinte
Tu que araste minha vulva com saliva e sêmen!
Comunga comigo este ardor
Como se soubesses quem realmente sou...

A Alma tenho com outras vestes,
Véus, pulseiras, adornos,
As pálpebras desenhadas com tinta
Onde lês “Vem, vem”.
Olha-me nos olhos: sou fábula, sou lenda,
Outra face de mulher.
Olha-me, por favor, e bem dentro
Em meu solitário fundo,
Que és tu que amo,
Tu
Que me beijas sem quereres ver.

15 de maio de 2009

Mnemon



No escuro cobre do quarto
Tua boca tem gosto de volúpia faminta...
Entre as luzes difusas da janela molhada,
Teus olhos cintilam tristes
E é deles que ganho o labirinto do tempo.

Há névoa em meu olhar-mar, velhas pupilas,
Mas o barco da procura singra em meu ser gelado
Invocando tua imagem frágil na tempestade...
Teu corpo despido e entregue é avassalador,
Tal qual era assustadora a certeza em teu fremir!

E eu, velho fauno a ver-te na névoa, soçobro
Ante o inconcebível desejo de me tatuar de ti.
Busco-te no passado assim, arrebatamento devassado,
Carícia-ilha de mulher num horizonte difuso e perdido.

No escuro cobre deste quarto deserto,
Amarga está a minha boca de palavras e tinta...
Na luz parca da madrugada nua,
Meus olhos enfim apagam-se em águas-lágrimas!

28 de abril de 2009

Noturno 17 - Outono urbano



Escura noite riscada de luzes,
A lua já não está lá,
A rua já não tem ninguém lá
Os fios tensos estão vazios
O andarilho fugidio já lá não passa...
O céu sem brilho, denso de nuvens e fumaça,
Véu disforme e penso, empoçado de baixios,
Cobre-me.
Luzes lisas, frisos dos lumes artificiais,
Boatos e sons fractais,
Frio da cor de betume...
E eu insone e quase imune
Espreito.
Na lua cheia ida,
O verme já não passeia mais!
Fecho a janela da aberta ferida
E desmancho-me:
Mesmo eu já não encontro meus sinais...

Psiqué II
















Meu corpo está deserto.
Desço ao meu inferno e destroço-me a buscar meu segredo
E em meu degredo fico vagando incerta
A esperar que venhas resgatar tua mulher.
Meu nômade estrangeiro,
Hoje tua alegre visita me salvaria do jugo de minhas entranhas.
Minha alma geme triste e prisioneira
E a sujeira sob as unhas de um deus amável é só o que vela por mim.
Nua, desencontrada e esquecida qual mariposa evanescente, arrefeço...
Mas se teu beijo eu tivesse, amado meu,
Se ainda pudesse senti-lo em minha boca,
Ascenderia em vida aos trigais abandonados de minha seara.
Dar-me-ia toda ao teu arado, feliz por me quereres.
Desentranhada de minha descida, revelada de minha sombra,
Abrolharia apossada de mim, armada de mim, senhora!
Ah vem ter comigo, meu homem terno. Toma-me toda
E ama-me que essa é minha remição, aquilo que me faz inteira e tua!