27 de junho de 2010


Meu coração sonhador
Bomba-bombeia.
Um coração desmedido
Quase a me saltar pela boca...
Agita meu peito sofrido
Surgindo de meu oceano-alma:
- Cadê... Cadê... Cadê... Cadê...

Em sua cardeal essência,
Teimoso, a bater, persegue
As reminiscências do antigo amor,
Adormecido amor, “cadê”,
Calado amor, “cadê”,
Perdido talvez...
- Cadê... Cadê... Cadê... Cadê...

Saudades... Memória ardente,
Fogo da paixão evanescente,
Cadência forte que me envolve...
O amor em mim que se dissolve
Busco tristemente, coração,
- Cadê... Cadê... Cadê... Cadê
No vazio em mim a me doer?

A Velha Cristaleira


Estou para jogar a velha cristaleira no meio da rua.
Quero vê-la estilhaçada, cacos de louça e vidro,
Espatifada de memórias, sonhos e planos.
O lugar certo à mesa e os lugares errados herdados
Sucumbindo no asfalto com estardalhaço,
O destroçar do velho móvel, imóvel em minha alma.
Vou atirá-la da sacada dos meus olhos
bem no meio do dia, para que eu me veja
Nos pedaços inúteis guardados do tempo.
Resistir por quê se o que é novo já nasce envelhecendo?
Meu caminho incerto é lei e não tem volta.
Meus enganos não precisam de lembranças.
Na hora certa, seja lá o que isso queira dizer,
O melhor é estar de mãos vazias.

6 de março de 2010

AMALEÃO

RUGELEÃO NAMADRUGADA,
RUGELÉO QUE REI-QUE-É-REI
RUGE NÃO LADRA,
AMOR-DE-REI, NÃO NEGA O OLHAR!
NÃO MORDEREI SENÃO O CÃO
QUE NÃO ME É NADA.
A QUEM AMO TEM-ME TODO
E CHAMO RUIDOSO A URRAR SAUDADE
AOS AMIGOS IDOS-E-CHEGADOS.
AMORDELEÃO DO-PÓ-AO-PÓ,
RUGIR-AMOR, AMOR-DE-LEI,
ALMA LAVADA.

3 de fevereiro de 2010


Navego no tempo qual ser estranho,
Homem faminto de quereres...
A água à toa da vida no olhar perdido
Ainda atiça meus desejos,
Ainda sustem minha nau de tantos não-rumos.

Da hora em que vim, ignaro de dores e cansaços,
E tomei para mim o leme inútil de meu barco,
Entendi apenas que não importa aonde chegar
Mas sim o oceano-tempo a me conduzir em descaminhos
Num viver sem remorsos cada gota das águas que me cabem.

Continua, corpo meu cansado!
Singra as ondas que o deus do nevoeiro
Pôs à tua volta nesse mar do existir.
Haverá um porto no fim da jornada
Para a alma teimosa que carregas:

Uma ilha nua na pele de uma indizível mulher
Onde hei de me desfazer de quem sou
Do que fui, do que vi, do que fiz
E mesmo em meio ao medo e ao espanto,
Consentir e esquecer.

12 de janeiro de 2010

POIESIS


POIESIS I

Ah lindos olhos!

Que fria é a indiferença!
Crer ou não crer,
Fogo divino ou roubado,
Fogo estelar ou fogo fátuo,
Barro das estátuas ou poeira de estrelas...

Ao abrir a arca, lindos olhos,
O deslumbramento do primeiro instante
Fenece,
Pois não alcançamos a eternidade.
Aqui é o poço do interminável...

O eterno é mais como a fotografia,
Ilusão, átimo e átomos que não envelhecem,
Sempre o primeiro espocar.
Apenas meus fantasmas
Continuam livres nos álbuns de retratos.


POIESIS II

Tempo é como uma onda a girar sobre si.
O mar da eternidade, esse, é instantâneo,
Não tem ontem nem amanhã!
Um velho templo abandonado tem mais de Deus
Que todas as religiões.
Vazio e sem teto, sem ninguém que o bendiga,
Sem pensamentos
É sagrado por deixar de ser...
O acontecer é o espaço a rolar na vaga do tempo...
O início é só uma palavra que em verdade
Nunca devia ser dita.


POIESIS III

Nenhum lugar...
Névoa dos séculos sem ninguém,
A ausência, o vazio.
Só o amor é único e eternamente jovem.

O que é mais repugnante é o correr dos anos,
A verdadeira prisão dos homens...
O anjo mais belo já é comparação,
Implica em haver o mais feio, dualidade, existência.

Esse anjo luzente, o mais só, cíclico e interminável,
Arde e consome-se, lucila e então se apaga.
É a última entranha,
E por ser derradeiro teve começo
E isso é não ter paz,
Isso é Nascer e Morrer!


POIESIS IV

Existir está fadado a acontecer
E o destino é a vontade,
A órfã vontade dos mais antigos anseios.
Os corações acorrentados por Saturno petrificarão,
Depois desmanchar-se-ão em pó
E o pó em instante.
A redenção é deixar de ser,

Nenhum lugar, nenhum momento,
Apenas o amor primeiro e único!


POIESIS V

Por que “se Deus quiser”?
Quem quer é o homem,
Esse prisioneiro do acontecer.
Deus nada quer e nem acontece
Por isso é eterno.
Existir nada tem a ver com a eternidade!

3 de janeiro de 2010

DANTE'S PRAYER ( Loreena Mckennitt)



Prece de Dante

Quando a escura floresta caiu sobre mim
E todas as trilhas ficaram encobertas
E os sacerdotes do orgulho diziam não haver outro modo
Eu revolvi os lamentos de pedra

Eu não acreditava porque ver não podia
Embora me tenhas vindo à noite
Quando a aurora parecia para sempre perdida
Mostraste-me teu amor no luzir das estrelas

Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer infinda
Peço, lembra de mim

Então a montanha elevou-se à minha frente
Do fundo poço dos desejos
A começar da fonte do perdão
Para além do gelo e do fogo

Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer sem fim
Peço, lembra de mim

Embora partilhemos este humilde caminho sozinhos
Como é frágil o coração
Oh, dê a estes pés de barro, asas para voar
Para tocar a face das estrelas

Sopra vida neste flébil coração
Ergue este mortal véu de medo
Toma estas destruídas esperanças, corroídas de lágrimas
Vamos nos elevar acima das coisas mundanas

Lança teus olhos sobre o oceano
Lança tua alma ao mar
Quando a escura noite parecer sem fim
Peço, lembra de mim
Peço, lembra de mim...
versão para o português de Mario Ferrari